quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Lembrança

      O CORVO *
      (de Edgar Allan Poe)
    Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
    Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
    E já quase adormecia, ouvi o que parecia
    O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
    "Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
    É só isto, e nada mais."Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
    E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
    Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
    P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
    Mas sem nome aqui jamais!Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
    Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
    Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
    "É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
    Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
    É só isto, e nada mais".E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
    "Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
    Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
    Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
    Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
    Noite, noite e nada mais.A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
    Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
    Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
    E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
    Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
    Isso só e nada mais.Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
    Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
    "Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
    Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
    Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
    "É o vento, e nada mais."Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
    Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
    Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
    Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
    Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
    Foi, pousou, e nada mais.E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
    Com o solene decoro de seus ares rituais.
    "Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
    Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
    Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
    Disse o corvo, "Nunca mais".Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
    Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
    Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
    Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
    Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
    Com o nome "Nunca mais".Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
    Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
    Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
    Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
    Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
    Disse o corvo, "Nunca mais".A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
    "Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
    Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
    Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
    E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
    Era este "Nunca mais".Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
    Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
    E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
    Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
    Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
    Com aquele "Nunca mais".Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
    À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
    Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
    No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
    Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
    Reclinar-se-á nunca mais!Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
    Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
    "Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
    O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
    O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
    Disse o corvo, "Nunca mais"."Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
    Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
    A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
    A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
    Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
    Disse o corvo, "Nunca mais"."Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
    Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
    Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
    Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
    Disse o corvo, "Nunca mais"."Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
    Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
    Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
    Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
    Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
    Disse o corvo, "Nunca mais".E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
    No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
    Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
    E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
    Libertar-se-á... nunca mais!
    Traduzido por Fernando Pessoa

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Olhar

É bom quando alguém enxerga a nossa verdade e segura a nossa mão na adversidade. Tem dias que só um afago é capaz de tirar da beira do abismo. Aquele olhar que te lê e te vê além de você. Aquele abraço de cuidado, de carinho. 
É tão mágico ver alguém doando paz para um peito aflito. 
Tudo traz um desejo de simplicidade de um sorriso que toque a alma. Um perfume que seja único, mesmo que outras cinco milhões de pessoas também o usem. Quero aquela conexão na troca de olhar que não é timidez nem malicia, não é incomodo nem invasão, aquela conexão que dispara suspiros involuntários e descompassados. Não quero nada além de  alguém que seja um esboço dos meus desejos mais íntimos e pueris em qualquer situação.
 Da pra saber o que é amor antes de ser? A paixão explode em perguntas dentro da gente quando são respondidas e quando correspondidas nos tiram da linha da razão. Adoro colecionar experiencias, tenho algumas historias para contar, mas vai chegar o dia que todas elas vão ser frutos da mesma mulher, aquela que eu ainda vou olhar nos olhos e sentir aquela vibração unica e diferente. Aquela a ser a ultima a dividir a minha cama comigo, fará eu perceber que não preciso mais buscar, apenas doar.
A perfeição não existe na sua forma mais plena, mas individualmente existe algo muito próximo a isso, algo que só podemos explicar quando encontramos o amor. 

sábado, 2 de novembro de 2019

Silêncio

A gente se cala, o que não significa que estamos concordando com o que estamos ouvindo, a gente se cala por saber que temos uma facilidade muito grande em ferir quem está falando. A gente não se cala pela falta de palavras, a gente se cala pelo excesso delas. A gente se cala para tentar de alguma forma poupar o outro de ouvir o que a gente realmente pensa. Nem todo mundo está preparado para isso. Com os pensamentos que tenho tido, com a forma que tenho me sentido, é melhor me calar. As pessoas não são lápis

Tudo é vário. 
Temporário.
Efêmero.
Nunca somos.

Sempre estamos
Passageiros 

terça-feira, 9 de abril de 2019

Para não esquecer

As três verdades da vida:  Primeiro:  Não se preocupe com as pessoas do seu passado, há uma razão pela qual elas não estão no seu presente e outra pela qual não chegarão ao seu futuro. Segundo:  Uma pessoa muda por duas razões: ou porque aprendeu demais ou porque sofreu o suficiente para mudar. Terceiro:  Não dependa de ninguém na sua vida, só de Deus. Pois até mesmo tua sombra te abandonará quando você estiver na escuridão.

terça-feira, 12 de março de 2019

Concentração

Sou um universo em expansão,
matéria escura,
mistério,
linha temporal.
Sou desentendimento e compreensão,
dúvida e silêncio,
incômodo,
prazer,
questionamentos e mais questionamentos.
Tenho corredores que só eu conheço,
sou extremos,
resiliência,
medo e coragem,
sou a expansão,
sou colisões.
A vida nos molda. Sou a minha jornada. 
Sou a junção dos fragmentos de todos os mundos que já passaram por mim, 
que viajaram por mim. 
Sou grata por cada pedacinho. Por cada ruptura. Por cada cratera.
Suas estrelas ainda aparecem no meu céu. 
O sol ainda nasce. 
Não saí da minha órbita.
Às vezes, chuvas de meteoros passam por mim…
É a saudade entrando em chamas na minha atmosfera, 
e então eu sou faísca.
Mas também sou mar, tá?
não se preocupa não. Sou o mar agitado mas também sou calmaria.

Sou tsunami e tranquilidade. Sou brisa.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Mário Andrade, Eterna Presença

Este feliz desejo de abraçar-te,
Pois que tão longe tu de mim estás,
Faz com que te imagine em toda a parte

Visão, trazendo-me ventura e paz.

Vejo-te em sonho, sonho de beijar-te;
Vejo-te sombra, vou correndo atrás;
Vejo-te nua, oh branco lírio de arte,
Corando-me a existência de rapaz…

E com ver-te e sonhar-te, esta lembrança
Geratriz, esta mágica saudade,
Dá-me a ilusão de que chegaste enfim;

Sinto alegrias de quem pede e alcança
E a enganadora força de, em verdade,
Ter-te, longe de mim, juntinho a mim



Toda força

Ser forte, na verdade, não é ser indestrutível e impenetrável. É saber lidar com sua fraqueza. E viver, mesmo sabendo que a vida, eventualmente, pode te deixar em pedaços. E que esses pedaços nunca serão consertados ou refeitos. No máximo, serão colados e, mesmo assim, nunca serão como antes. Ser forte é abraçar esses pedaços remendados e saber que são eles que definem quem você é.

Não dá pra simplesmente passar uma borracha em cima de tudo o que você viveu e voltar a ser alguém que não vai ser nunca mais, não dá pra ignorar a dor que vive dentro de você, aquela dor que te faz agonizar todos os dias, que te faz querer chorar ou nunca ter se machucado, não dá pra ignorar aquela dor que provavelmente te mude pro resto da vida, não dá.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Trem bala

Trago o fado de transpirar reflexão, conjecturas de chumbo, especulações de pedras, em uma cínica saudade do amanhã. 
Carrego em mim o tempo que não veio. 
Fecho os olhos e ele se dilui secretamente;
O passado ecoa em imperdao; o futuro vem sem Norte. 
Arrumo as malas da viagem incerta, guardo as coisas, o coração, o tempo. 
A noite meus olhos saem de mim, correm a espiar pelas fechaduras, minha boca da cálidos beijos, a quilômetros de distância e toneladas de silêncio. 
Me desfragmento na noite. 
Secreta competição de sofreres: faca - palavra muda. 

Minha palavra é ave-bala que sai do espelho e me sangra.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Para recordar

Tem algo que saiu de mim hoje de manhã, mas do que importa? Eu lembrei de quando beijei teu colo cru e você me puxou para que eu pudesse sentir seu beijo de boca fria. Eu me vi morta nos teus olhos e ainda fazia tanto calor! A gente se bateu, acho que foi um erro que universo cometeu, deve ser por isso que ele tá indiferente a gente agora. Fomos sepultadas em algum canto e ninguém foi ao nosso enterro. A gente lutou feito poeta, mas teve arte que vontade de ficar. Foi algo que consumiu mesmo, e agora sinto que estou sentada a sua porta porque me deixei ser consumida. Tá fazendo um frio danado. Tem um hino que tá tocando do seu quarto e eu ouço daqui, tem som de angustia e parece forte! Tem um cântico aí que tá saindo do seu peito e cantando o céu inteiro, é por isso que tá tão frio, não é? É noite, e as sombras das arvores cobrem a rua inteira que eu não vejo quase nada que me inquieta. Eu tô com saudade das suas mãos pálidas e virgens… eu queria gritar… saudades da nossa sepultura com seu nome e suas vestes tristes e solitárias… saudades de março e maio de quando eu era a sua fome e seu sussurro de socorro. Tem tanto sentimento aqui! Mas que vou já liberá-los porque eu tô me renascendo em terra e já posso te ler nas entrelinhas, mas quem dera, viu? ter um pouco de você mais aqui!

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Se minha cama falasse

Aaaaa meu amor, se nossa cama falasse... Como estaríamos perdidos! 
Ela contaria das nossas trocas, das confissões de amor, dos nosso sussurros ao pé do ouvido, das brigas, das confissões que fizemos um ao outro em dias difíceis, contaria dos nossos planos para o futuro, das discussões sobre a vida, dos nossos segredos mais íntimos. Contaria como me beija a nuca e como cola teu corpo no meu nos tornando uno. Contaria como somos feitos de mel e calor... De dengo e saudade... De como não conseguimos desviar nosso olhar... 
Ela diria que entre a gente existe o amor mais lindo do mundo, mesmo começando com briga e terminando sempre em sacanagem. Os beatos que me desculpem, mas amor sem sexo e sexo sem amor... Não é mesmo paixão.
É! No momento eu seria capaz de jurar que éramos infinitos e eternos... 
Vc aprende a ser feliz, vc aprende a amar essa cama e aprende que ela vai ser sempre feita de contos e histórias...
Aaaaaaa... Depois de um tempo... Depois de um tempo, quando vc entende que é isso e muito mais que a vida pode te oferecer, que ela não exige que para ter isso vc tenha que esquecer, que não ha nada que vc precise esquecer... Quando entende que viver não significa ignorar uma chamada no telefone, nem evitar reencontros casuais, que desentendimentos existem para chegar a um entendimento.... Tudo faz parte! 
A vida é feita desses momentos e não de esquecimentos! 
Essa é uma viagem que só acontece se nós nos permitirmos!