"Peço-lhe que tente ter amor pelas próprias perguntas, como quartos fechados e como livros escritos em uma língua estrangeira.
Não investigue agora as respostas que não lhe podem ser dadas, porque não poderia vivê-las. E é disto que se trata, de viver tudo. Viva agora as perguntas.
Talvez passe, gradativamente, em um belo dia, sem perceber, a viver as respostas.
Talvez o senhor já traga consigo a possibilidade de construir e formar, como um modo de viver especialmente afortunado e puro; eduque-se para isso. Mas aceite com grande confiança o que vier, e se vier apenas de sua vontade, se for proveniente de qualquer necessidade de seu íntimo, aceite-o e não o odeie.
A carne é um fardo, verdade. Mas é difícil a nossa incumbência, quase tudo o que é sério é difícil, e tudo é sério.
Se o senhor reconhecer apenas isso e chegar a conquistar, a partir de si, de sua disposição e de seu modo de ser, de sua experiência e infância e força, uma relação inteiramente própria (não dominada pela convenção e pelo hábito) com a carne, então o senhor não precisa mais ter receio de se perder e se tornar indigno de sua melhor posse.
Muitos cansados de sua vida, como uma distração, em vez de uma concentração para alcançar pontos mais altos.
Os homens converteram até mesmo o ato de comer em uma outra coisa: carência por um lado e excesso por outro obscureceram a clareza dessa necessidade; e igualmente obscurecidas se tornaram todas as necessidades profundas e simples nas quais a vida se renova.
Mas o indivíduo pode esclarecê-las para si mesmo e viver claramente (senão o indivíduo que é muito dependente, pelo menos o solitário).
Ele pode recordar que toda a beleza nos animais e nas plantas é uma forma tranqüila e duradoura de amor e anseio, pode ver o animal, como vê as plantas, unindo-se paciente e voluntariamente, multiplicando-se e crescendo não por desejo físico nem por dor física, voltando-se para necessidades que são maiores do que o desejo e a dor, mais poderosas do que a vontade e a resistência.
Ah, que o homem pudesse aceitar humildemente esse segredo, do qual a Terra está repleta até em suas menores coisas, e o suportasse com seriedade, sentindo como ele é terrivelmente pesado, em vez de tomá-lo de maneira leviana. Que ele tivesse respeito diante de sua própria fecundidade, que é uma só, mesmo parecendo ora espiritual ora corpo.
A volúpia corporal é uma vivência dos sentidos, não difere do simples olhar ou da pura sensação de água na boca causada por uma fruta; ela é uma grande experiência, infinita, que nos é dada, um saber do mundo, a plenitude e o brilho de todo saber.
Não é ruim o fato de a aceitarmos; ruim é o fato de que quase todos abusam dessa experiência e a desperdiçam, usando-a como um estímulo nos momentos.
Mas tudo o que talvez um dia ainda seja possível para muitos o solitário pode, já agora, preparar e construir com suas mãos, que erram menos. Por isso, caro senhor, ame a sua solidão e suporte a dor que ela lhe causa com belos lamentos. Pois os que são próximos do senhor estão distantes, é o que diz, e isso mostra que o espaço começa a se ampliar à sua volta.
Se o próximo está longe, então o que é distante vaga entre as estrelas, na imensidão. Alegre-se com seu crescimento, para o qual não pode levar ninguém junto, e seja bondoso com aqueles que ficam para trás, seja seguro e tranqüilo diante deles, sem perturbá-los com as suas dúvidas nem assustá-los com uma confiança ou alegria que eles não poderiam compreender.
Procure constituir com eles algum tipo de comunhão simples e fiel, que não precise ser alterada à medida que o senhor mesmo se modifica cada vez mais. Ame neles a vida em uma outra forma e seja indulgente com pessoas mais velhas que temem a solidão na qual o senhor tem confiança.
Evite alimentar aquele drama que sempre existe entre pais e filhos; ele desperdiça muita força dos filhos e consome o amor dos pais, um amor que atua e acolhe, mesmo que não seja compreensivo.
Não reivindique deles conselho algum e não conte com compreensão alguma, mas acredite em um amor que foi conservado para o senhor como uma herança, confie no fato de que há nesse amor uma força e uma bênção, das quais não escapará para ir muito longe.
É bom, antes de tudo, que o senhor exerça uma profissão, porque isso o tornará independente e o entregará por completo a si mesmo, em todos os sentidos.
Aguarde com paciência para saber se a sua vida mais íntima ficará restrita pela forma dessa profissão. Eu a considero muito difícil e muito exigente, uma vez que é carregada de grandes convenções e não deixa quase nenhum espaço para uma concepção pessoal de suas tarefas.
Mas a sua solidão será um pouso e um lar, mesmo em meio a relações muito hostis, e a partir dela o senhor encontrará os seus caminhos.
Todos os meus desejos estão prontos para acompanhá-lo e a minha confiança está com o senhor".