terça-feira, 14 de junho de 2022

Literatura - Solitude

Assim como, por muito tempo, os homens se enganaram a respeito do movimento do
sol, eles ainda se enganam quanto ao
movimento do porvir. O futuro permanece
firme, caro senhor Kappus, mas nós nos
movemos no espaço infinito.
Como isso não seria difícil para nós?
Voltando ao assunto da solidão, fica
cada vez mais claro que no fundo ela não é
nada que se possa escolher ou abandonar.
Somos solitários. É possível iludir-se a esse
respeito e agir como se não fôssemos.
tudo. Muito melhor, porém, é perceber
que somos solitários, e partir exatamente
daí. Com certeza acontecerá de sentirmos
vertigens, pois todos os pontos em que
nossos olhos costumavam descansar nos
são tirados, não há mais nada próximo, e
toda distância é uma distância infinita.
Quem fosse retirado de seu quarto, quase
sem preparação ou transição, e posto nas
alturas de uma grande montanha, necessariamente sentiria algo semelhante: uma
insegurança sem igual, um abandono ao
inominável quase o aniquilariam. Ele pen-
saria estar caindo ou sendo arrastado pelos
ares ou destroçado em mil pedaços. Seu
cérebro precisaria inventar uma mentira
enorme para captar e esclarecer a situação
de seus sentidos.
Quanto mais tranqüilos, pacientes e
receptivos formos quando estamos tristes.
tanto mais profundo e mais firme o modo
como o novo entra em nós, tanto mais
fazemos por merecê-lo, tanto mais ele se
torna o nosso destino. Assim, quando em
um dia distante o novo “acontecer" (ou seja: sair de nós e aparecer para os outros), estaremos intimamente familiarizados com ele e nos sentiremos próximos.
É necessário que isso ocorra. É necessário e dessa maneira se dá aos poucos a nossa evolução - que não experimentemos nada de estranho, mas apenas aquilo que nos pertence há muito tempo.
Como para aquele homem no pico da montanha, surgem então imaginações inabituais e sensações estranhas, que parecem ultrapassar a medida do que se pode suportar. No entanto é necessário que vivamos também isso. Precisamos aceitar a nossa existência em todo o seu alcance; tudo, mesmo o inaudito, tem de ser possível nela. No fundo é esta a única coragem que se exige de nós: sermos corajosos diante do que é mais estranho, mais maravilhoso e mais inexplicável entre tudo com que nos deparamos. O fato de os homens terem sido covardes nesse sentido causou danos infinitos à vida; as experiências que são chamadas de "fenômenos", todo o suposto “mundo dos espíritos" morte, todas essas coisas tão familiares para nós foram tão excluídas da vida, por meio de uma atitude cotidiana defensiva, que os sentidos com os quais poderíamos apreendê-las se atrofiaram. Sem falar em Deus. Mas o medo do inexplicável não empobreceu apenas a existência individual, também as relações entre as pessoas foram limitadas por ele, como que transferidas do leito de um rio de infinitas possibilidades para um local ermo da margem”.
Fragmentos do livro: Cartas a um jovem Poeta, Rilke

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