No auge da minha transformação, de jovem a balzaquiana faço a constatação:
A solidão é minha sentença inafiançável, uma vez que em meio há tantos relacionamentos, seja de amigos ou romântico, eu tenha me projetado de modo a me doar mais do que receber, e quando careço disso, não é dado. Me frustra e falta no outro a vontade da percepção. É cômodo. Acaba que meus 14 anos morando sozinha, trouxe como consequência a dificuldade de viver em comunhão diante dessa minha dificuldade de falar e do mínimo de perceber. Vivi isso uma vez.
Então, não fui feita para ninguém senão para meu próprio desfrute.
Me sinto estrangeira, parida noutro astro, vim de longe — eu não sou daqui, eu não sou de lá. Não me encaixo: vago. À mercê.
De que? De mim!
Estou a passeio. Um tanto perdida, tudo confundo, titubeio. Nada me alcança. O amor telúrico é para mim mera superficialidade — eu, que só conheço o extremo do afogamento, tenho asco aos mares rasos. Busco mais. De onde venho, não há eufemismo: é tudo hipérbole, chega a ser exagero. A apatia destes rostos me espanta. As normas deste mundo foram-me sempre incompreensíveis — minha única linguagem é a liberdade, tentativa de cuidar. Não há sentido em minhas palavras incongruentes; eu sou ilegível ou nem legível por demais. O universo não me conhece e nada sei das entranhas do cosmos que me embala; sou levada onde o vento vai, minha bússola falha. Não entendo, tampouco sou entendida. Na tentativa insolente de caber, sufoco em espaços muito pequenos. Traço diariamente a trajetória de Sísifio; existir é tarefa implacável que esgota-me as energias. Esvaziando-me em vãs tentativas, torno-me oca e rasa. A paisagem é estonteante mas já não sei seguir sua trilha árdua. Eu quero ficar, eu quero ir embora. Eu quero tudo, quero tanto, quero nada. Eu quero...
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