sexta-feira, 15 de maio de 2020
Incerto
Caralho, todo prazer tem certo amargor, o drama do prazer; todas as coisas agradáveis acabam por amargar, uma vez que o doce deixa de existir; todas as flores murcham quando as colhemos e não somos capazes de regar de acordo com a sua necessidade, e todo o amor morre tanto mais depressa quanto é mais retribuído. Por isso o passado, sempre, parece-nos sempre melhor que o presente; esquecemos os espinhos das rosas colhidas; saltamos por cima dos insultos e injúrias e demoramo-nos sobre as vitórias. O presente parece muito mesquinho diante de um passado do qual só retemos na memória o bom, e diante de um futuro que ainda é sonho. O que alcançamos nunca nos contenta; ‘olhamos para diante e para trás em procura do que não está ali’; não somos bastante sábios para amar o presente do mesmo modo que o amaremos quando se tornar passado, mas somos aflitos demais para viver o futuro sem certeza alguma. Quando mergulhamos num prazer, o nosso olhar vai para longe - a felicidade ainda não está alcançada apesar de termos o deleite nos nossos braços. Que mau demônio nos afeiçoou assim? Por que é tão melhor a ilusão que a realidade?
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário