quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Fala

Engole o choro. Engole sapo. Cala a boca. Cala o peito. Mas o corpo fala, como fala.
Fala a ponta dos dedos batendo na mesa. Falam os pés inquietos, principalmente na cama.
Fala a gastrite, o refluxo, a ansiedade. Fala o nó na garganta atravessado. Fala a angústia, fala a ruga na testa. Fala a insônia, o sono demasiado.
Você se cala, mas o falatório interno começa.
As pessoas adoecem porque cultivam e guardam as coisas não digeridas dentro de seus corações.
Porque ao invés de gritar para fora, gritam para dentro

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

O que?

O que/quem você sonha quando está acordado?
O que/quem você pensa quando está dormindo?

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Diário de uma paixão fugitiva


Gosto da forma que você me olha como se fosse a primeira vez, algumas vezes como se fosse a última e você simplesmente não pudesse tirar os olhos de mim para não perder nenhum detalhe, nenhum momento e guardar tudo na memória.

Eu gosto de como você me toca, da sua mão macia. Eu gosto de como você me segura. Nunca me apertando muito nem me deixando muito solta. Você sabe exatamente como não me perder e como não me quebrar, espero que nunca quebrar.

Gosto da sua boca, de como ela encontra a minha, como elas se encaixam e da sua voz. Respectivamente, desenhada e tão suave que mais parece música para os meus ouvidos.

Eu gosto de olhar para você, ficar te observando mesmo que de longe.

Apesar de toda espera, esperar foi uma forma linda de dizer: Eu confio


- Por que você está me olhando desse jeito? 
- Só lembranças…
Eu comecei a desejar ela enquanto estávamos separadas distantes, e desejei ainda mais no momento em que a vi.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Lembrança

      O CORVO *
      (de Edgar Allan Poe)
    Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
    Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
    E já quase adormecia, ouvi o que parecia
    O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
    "Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
    É só isto, e nada mais."Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
    E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
    Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
    P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
    Mas sem nome aqui jamais!Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
    Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
    Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
    "É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
    Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
    É só isto, e nada mais".E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
    "Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
    Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
    Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
    Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
    Noite, noite e nada mais.A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
    Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
    Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
    E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
    Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
    Isso só e nada mais.Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
    Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
    "Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
    Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
    Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
    "É o vento, e nada mais."Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
    Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
    Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
    Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
    Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
    Foi, pousou, e nada mais.E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
    Com o solene decoro de seus ares rituais.
    "Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
    Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
    Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
    Disse o corvo, "Nunca mais".Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
    Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
    Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
    Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
    Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
    Com o nome "Nunca mais".Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
    Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
    Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
    Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
    Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
    Disse o corvo, "Nunca mais".A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
    "Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
    Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
    Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
    E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
    Era este "Nunca mais".Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
    Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
    E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
    Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
    Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
    Com aquele "Nunca mais".Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
    À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
    Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
    No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
    Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
    Reclinar-se-á nunca mais!Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
    Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
    "Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
    O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
    O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
    Disse o corvo, "Nunca mais"."Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
    Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
    A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
    A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
    Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
    Disse o corvo, "Nunca mais"."Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
    Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
    Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
    Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
    Disse o corvo, "Nunca mais"."Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
    Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
    Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
    Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
    Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
    Disse o corvo, "Nunca mais".E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
    No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
    Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
    E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
    Libertar-se-á... nunca mais!
    Traduzido por Fernando Pessoa

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Olhar

É bom quando alguém enxerga a nossa verdade e segura a nossa mão na adversidade. Tem dias que só um afago é capaz de tirar da beira do abismo. Aquele olhar que te lê e te vê além de você. Aquele abraço de cuidado, de carinho. 
É tão mágico ver alguém doando paz para um peito aflito. 
Tudo traz um desejo de simplicidade de um sorriso que toque a alma. Um perfume que seja único, mesmo que outras cinco milhões de pessoas também o usem. Quero aquela conexão na troca de olhar que não é timidez nem malicia, não é incomodo nem invasão, aquela conexão que dispara suspiros involuntários e descompassados. Não quero nada além de  alguém que seja um esboço dos meus desejos mais íntimos e pueris em qualquer situação.
 Da pra saber o que é amor antes de ser? A paixão explode em perguntas dentro da gente quando são respondidas e quando correspondidas nos tiram da linha da razão. Adoro colecionar experiencias, tenho algumas historias para contar, mas vai chegar o dia que todas elas vão ser frutos da mesma mulher, aquela que eu ainda vou olhar nos olhos e sentir aquela vibração unica e diferente. Aquela a ser a ultima a dividir a minha cama comigo, fará eu perceber que não preciso mais buscar, apenas doar.
A perfeição não existe na sua forma mais plena, mas individualmente existe algo muito próximo a isso, algo que só podemos explicar quando encontramos o amor. 

sábado, 2 de novembro de 2019

Silêncio

A gente se cala, o que não significa que estamos concordando com o que estamos ouvindo, a gente se cala por saber que temos uma facilidade muito grande em ferir quem está falando. A gente não se cala pela falta de palavras, a gente se cala pelo excesso delas. A gente se cala para tentar de alguma forma poupar o outro de ouvir o que a gente realmente pensa. Nem todo mundo está preparado para isso. Com os pensamentos que tenho tido, com a forma que tenho me sentido, é melhor me calar. As pessoas não são lápis

Tudo é vário. 
Temporário.
Efêmero.
Nunca somos.

Sempre estamos
Passageiros 

terça-feira, 9 de abril de 2019

Para não esquecer

As três verdades da vida:  Primeiro:  Não se preocupe com as pessoas do seu passado, há uma razão pela qual elas não estão no seu presente e outra pela qual não chegarão ao seu futuro. Segundo:  Uma pessoa muda por duas razões: ou porque aprendeu demais ou porque sofreu o suficiente para mudar. Terceiro:  Não dependa de ninguém na sua vida, só de Deus. Pois até mesmo tua sombra te abandonará quando você estiver na escuridão.

terça-feira, 12 de março de 2019

Concentração

Sou um universo em expansão,
matéria escura,
mistério,
linha temporal.
Sou desentendimento e compreensão,
dúvida e silêncio,
incômodo,
prazer,
questionamentos e mais questionamentos.
Tenho corredores que só eu conheço,
sou extremos,
resiliência,
medo e coragem,
sou a expansão,
sou colisões.
A vida nos molda. Sou a minha jornada. 
Sou a junção dos fragmentos de todos os mundos que já passaram por mim, 
que viajaram por mim. 
Sou grata por cada pedacinho. Por cada ruptura. Por cada cratera.
Suas estrelas ainda aparecem no meu céu. 
O sol ainda nasce. 
Não saí da minha órbita.
Às vezes, chuvas de meteoros passam por mim…
É a saudade entrando em chamas na minha atmosfera, 
e então eu sou faísca.
Mas também sou mar, tá?
não se preocupa não. Sou o mar agitado mas também sou calmaria.

Sou tsunami e tranquilidade. Sou brisa.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Mário Andrade, Eterna Presença

Este feliz desejo de abraçar-te,
Pois que tão longe tu de mim estás,
Faz com que te imagine em toda a parte

Visão, trazendo-me ventura e paz.

Vejo-te em sonho, sonho de beijar-te;
Vejo-te sombra, vou correndo atrás;
Vejo-te nua, oh branco lírio de arte,
Corando-me a existência de rapaz…

E com ver-te e sonhar-te, esta lembrança
Geratriz, esta mágica saudade,
Dá-me a ilusão de que chegaste enfim;

Sinto alegrias de quem pede e alcança
E a enganadora força de, em verdade,
Ter-te, longe de mim, juntinho a mim



Toda força

Ser forte, na verdade, não é ser indestrutível e impenetrável. É saber lidar com sua fraqueza. E viver, mesmo sabendo que a vida, eventualmente, pode te deixar em pedaços. E que esses pedaços nunca serão consertados ou refeitos. No máximo, serão colados e, mesmo assim, nunca serão como antes. Ser forte é abraçar esses pedaços remendados e saber que são eles que definem quem você é.

Não dá pra simplesmente passar uma borracha em cima de tudo o que você viveu e voltar a ser alguém que não vai ser nunca mais, não dá pra ignorar a dor que vive dentro de você, aquela dor que te faz agonizar todos os dias, que te faz querer chorar ou nunca ter se machucado, não dá pra ignorar aquela dor que provavelmente te mude pro resto da vida, não dá.